Na festa de luxo de Maria Flor, a filha mais velha de Virginia Fonseca e Zé Felipe, Maria Alice, 5 anos, chamou atenção na hora do tradicional parabéns à irmã. É que a garotinha pediu para tapar os ouvidos. Mas será que essa reação de Maria Alice merece atenção por parte dos pais?
É importante destacar em primeiro lugar que na infância, é comum ficar mais sensível aos sons e episódios semelhantes podem ser notados tanto em aniversários quanto diante de queimas de fogos. Assim como em apresentações nas escolas e em locais de muito movimento.
As crianças possuem diferentes maneiras de notar e processar os estímulos sonoros. Desconforto, medo ou vontade de se afastar podem ocorrer diante de som mais intenso, nível das palmas ou várias vozes ao mesmo tempo. Por isso, especialista recomenda ficar atento a esse tipo de comportamento no dia a dia dos pequenos.
"Uma criança pode se assustar com o barulho das palmas ou ficar incomodada com uma música alta sem que isso represente qualquer alteração no desenvolvimento. O sistema sensorial ainda está amadurecendo, e algumas crianças são naturalmente mais sensíveis a determinados estímulos. O que merece atenção é quando esse desconforto se torna frequente, intenso ou começa a interferir nas atividades do dia a dia", explica o pediatra Roberto Roecker.
Importante apontar que não gostar de um som e ter sensibilidade auditiva são coisas diferentes. E no segundo caso, é necessário se investigar. Até porque algumas crianças podem apresentar reações diante de barulhos comuns: do secador de cabelo ao aspirador de pó passando pelo liquidificador à descarga do banheiro.
Há a chance desse incômodo ter relação com a hiperacusia, que é a tolerância em grau menor aos sons do dia a dia; contudo, nem sempre o diagnóstico é esse. "Quando a criança começa a evitar determinados ambientes, chora intensamente diante de ruídos comuns, tapa os ouvidos com frequência ou demonstra sofrimento mesmo em situações consideradas tranquilas, vale conversar com o pediatra", alerta o profissional.
"Precisamos entender se existe uma sensibilidade auditiva aumentada, alguma condição relacionada à audição ou uma dificuldade mais ampla no processamento dos estímulos sensoriais", acrescenta o médico especialista.
Tal sensibilidade ao barulho pode ser vista em crianças diagnosticadas com Transtorno do Espectro Autista. É necessário, frise-se analisar outros detalhes como comportamento, desenvolvimento e interação social, até porque aquelas sem quadro de TEA também podem se mostrar desconfortáveis frente a sons intensos.
"Não podemos associar automaticamente o hábito de tapar os ouvidos ao autismo ou a qualquer outro transtorno. Esse é um comportamento que pode acontecer por diferentes motivos, inclusive por susto, cansaço ou excesso de estímulos. Uma avaliação só faz sentido quando analisamos o desenvolvimento da criança como um todo e identificamos sinais que realmente justifiquem uma investigação", aponta Roecker.
Cabem aos pais respeitar o limite dos filhos. Por exemplo, não obrigá-los a ficar em locais que levam ao sofrimento. Nas festas, deixar que os pequenos fiquem mais afastados das caixas de som, apontar um lugar mais calmo para descanso ou alertar anteriormente de situações de maior barulho. Protetores auriculares adequados são indicados, contudo não deve ser substituído pela avaliação de especialista se a sensibilidade for permanente.
"Se a criança pede para tapar os ouvidos, o primeiro passo é acolher esse desconforto. Não é necessário forçá-la a participar de uma situação que está sendo desagradável. Os pais podem observar quais sons provocam a reação e se ela acontece apenas em festas ou também dentro de casa e na escola. Essas informações ajudam a identificar quando é apenas uma preferência individual e quando existe necessidade de acompanhamento", aconselha.
As análises de otororrinos, fonos ou profissionais especializados em desenvolvimento infantil podem ser solicitadas após visita ao pediatra diante de um incômodo seguido. Da mesma forma se a criança apresentar zumbido, dor de ouvido ou alterações no processo de escuta.
"Cada criança tem seu próprio ritmo e sua maneira de perceber o ambiente. O papel dos adultos é acolher, observar e buscar orientação quando necessário. Nem todo desconforto é sinal de doença, mas toda reação persistente que causa sofrimento merece ser compreendida", conclui o pediatra.